pai, pai, pai, pai meu...
Existem coisas que só aprendemos quando há um exemplo, principalmente quando somos crianças. Quando somos pequenos, a presença constante diz muito mais do que a ausência voluntária. Quando a gente cresce e questiona os motivos de quem não esteve, a resposta dificilmente está onde se perdeu. A resposta está bem ali, onde sempre esteve, arrancando seus curativos de exame de sangue, fazendo café forte e doce, distribuindo tudo aquilo o que tem sem nunca cobrar nada de volta.
É bem ali, acompanhando em sindicâncias vicentinas e arrecadando recursos para os mais pobres, que esteve uma grandiosa lição. Não posso dizer que a aprendi por completo, ainda. E embora muitos atrelem a generosidade infinita às origens humildes, também não sei se concordo porque isso relativiza muito tudo o que ele é. Para além disso, supõe que todos os que vêm do mesmo lugar são assim, e todo mundo sabe que não é bem assim.
Meu preto velho me leva do amor à raiva em milímetros de segundo, é verdade. Porque embora eu saiba que ainda vai me tomar ao menos umas trinta vidas inteiras a mais para chegar perto de alcançá-lo em sua sabedoria e gentileza, nessa vida que compartilhamos sou incapaz de deixar que o sabotem, que aproveitem de sua boa vontade.
As pessoas geralmente o veem pelo que ele tem, sem perceber ou se importar que, a grande riqueza, na verdade, é o que ele é.
Acho que a melhor decisão que tomei na vida foi a de vir morar com ele. Estar ao seu lado todos os dias, desde o "bom dia" às dez da manhã até o "boa noite, neném" à meia noite, é uma benção inacreditável. Eu costumo dizer pra ele que duzentos anos dele nessa vida não seriam suficientes pro tanto que ele tem a oferecer pro mundo, então, ele que lute pra se manter aqui com a gente.
O bichinho é um poço de inteligência, aliás. Como se não bastasse ser um grande mestre no jogo de buraco, ler calhamaços e estudar francês, ele tem uma outra espécie de visão de mundo, uma visão bonita e poética demais, que costuma transcrever em seus poemas e poesias. O simples voo de uma andorinha é capaz de tirar dele os mais belos versos, as mais sensíveis palavras. Ele tem tanto a dizer, e ouso dizer que nós, que temos o privilégio de estar ao seu lado todos os dias, somos muito pouco perto do quanto ele realmente merece ser ouvido.
Ele é o falso calmo mais gente fina da parada. Assobia pra lá, canta pra cá, faz uma costelinha de porco como ninguém e de vez em quando marca uns strikes no boliche. Adora completar álbuns de figurinhas da copa do mundo e não concorda com as barganhas oportunistas de quem troca uma brilhante por vinte reais (e ele está certo, aliás). Não sabe muito bem andar de chinelo e me deixa de cabelo em pé quando o arrasta pra lá e para cá, mas vê tudo de um lugar muito mais incrível e simples, sorrindo mesmo quando não deveria. O famoso "sujeito de sorte", que apesar de sangrar e chorar, se sente abençoado sempre. Senhor Waldemiro já me ensinou tanto, e eu sei que ainda não aprendi nada perto da enciclopédia suprema e elevada que ele é — seu único erro imperdoável é insistir em gostar do Neymar, afinal.
É por isso que no dia de hoje, como em todos os outros, eu peço pro seu anjo de guarda, pro seu guardião e pra Xangô, que sejamos todos abençoados com muitos e muitos anos de vida e saúde pra você. Porque afinal, como se canta na macumba lá em casa...
Pai, pai, pai, pai meu... todo mundo tem um pai, e seu Waldemiro é o meu!
Feliz aniversário e tudo de mais lindo na sua vida, hoje e sempre. Que a espiritualidade continue a sempre retribuir todo esse amor e esse bem absurdo que você faz e é. Te amo com tudo o que há em mim, hoje e sempre. Dizem por aí que eu nasci "pra te salvar", mas eu acho que foi o contrário. A maior honra da minha vida é viver com você. Obrigada por ser o meu Norte, o meu aparato, a minha companhia e a minha poesia♥


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